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Participei da construção e da documentação do projeto A Casa de Jajja, na Uganda. A casa foi construída no primeiro trimestre de 2020.

O projeto, idealizado por Mariana Montag, visa a autoconstrução por mulheres em zonas rurais.

A CASA DE JAJJA

A Casa de Jajja é um projeto emancipatório de auto-construção de moradias para mulheres rurais. Dos primeiros desenhos à obra, o projeto entende o processo de construção como um espaço para troca de conhecimento, usando do desenho como uma ação holística capa de questionar a cadeia tradicional de construção.

 

O projeto foi concebido num vilarejo rural chamado Kikajjo, na Uganda, com participação direta de Jajja, de 75 anos, e usa de recursos locais e legado cultural. O processo de construção envolve oficinas de aprendizagem para mulheres, fortalecendo sua autonomia e questionando papéis de gênero.

 

A ideia central do projeto é servir como um protótipo que pode ser adaptado e replicado para prover moradia e treinamento técnico para mulheres em outras zona rurais com climas similares.

A idealizadora do projeto é a arquiteta Mariana Montag e eu pude acompanhá-la no financiamento coletivo e na construção da casa, colocando em prática os estudos teóricos e protótipos previamente concebidos. 

A construção da casa foi desafiadora: encontramos percalços durante a fundação, a execução da estrutura em madeira, a organização das refeições dos construtores e construtoras, o fechamento em alvenaria, os fechamentos da fachada em folha de papiro, as janelas e portas metálicas, a viga de amarração, os acabamentos do piso e a organização dos materiais no canteiro de obras. Todos os desafios foram encarados de maneira coletiva, por toda a equipe e pela futura moradora, a Jajja, numa troca e evolução constante.

fotos: Thais Viyuela

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A Casa de Jajja teve como berço o projeto Escola em Uganda, que visava um acompanhamento pedagógico da escola Saint Mary's também situada no vilarejo rural de Kikajjo, onde a casa foi posteriormente construída. A psicóloga comunitária Elisa Pires foi responsável pela estruturação inicial dos professores, que formaram um grupo de reflexão próprio chamado Agali Awamu (em luganda, "Juntos conseguimos"), que seria responsável por uma profunda mudança na postura educacional da escola. Num segundo momento, entendeu-se como necessária a construção de uma nova escola, partindo do experimento da construção de uma biblioteca e todo o seu mobiliário.

O projeto A Casa de Jajja é fruto do trabalho de conclusão de curso da arquiteta Mariana Montag pela Universidade Presbiteriana Mackenzie depois do seu envolvimento com a comunidade local no projeto Escola em Uganda. A arquiteta contou com o apoio de um financiamento coletivo pela plataforma da Benfeitoria para viabilizar os custos da compra do terreno, remuneração dos construtores e construtoras e material empregado em obra.

Minha participação no projeto teve início durante o financiamento coletivo, colaborando na comunicação e divulgação da plataforma. No início de 2020 embarquei para a Uganda, onde seria responsável pela maior parte do registro da construção e pela coordenação de algumas das etapas da obra, em conjunto com Mariana e outras arquitetas - Athena, Marie Combette, Luiza Tripolli e Camila Rogers - ao longo de quase 3 meses.

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Nessa etapa inicial do projeto, entendemos que a lógica proposta se pautava em três pilares principais.

A mulher, a casa e a natureza - Em primeiro lugar, entende-se que a rotina diária das mulheres em áreas rurais incorpora atividades que mitigam os efeitos do aquecimento global, no entanto, são essas mulheres as mais afetadas pelos desastres naturais resultantes das mudanças climáticas em curso . Além disso, as atividades domésticas são majoritariamente delegadas às mulheres, mas o ambiente doméstico foi historicamente planejado e construído por homens . O que aconteceria se levássemos em consideração essas rotinas para a construção de espaços mais sustentáveis? E se as mulheres fossem protagonistas da construção das próprias casas? Além da importância da participação feminina, os desenhos iniciais da primeira casa aconteceram em colaboração próxima com a futura usuária - a Jajja -, também como uma oportunidade de troca de conhecimento. A construção foi realizada através de oficinas de treinamento técnico para outras cinco mulheres, que também tiveram espaço para propor mudanças e opinar sobre partes específicas da obra.

Pessoas e natureza: recursos locais, renovação cíclica e processo sustentável - Em segundo lugar, o projeto propõe uma noção de sustentabilidade não só do ponto de vista ambiental, como também social. Para isso, é necessário entender como sustentável o processo em si, e não apenas o produto final. Tanto trabalho humano
quanto os materiais utilizados não são vistos apenas como recursos, mas também como agentes ativos em um desenvolvimento cíclico que, através das trocas e de uma organização mais horizontal, renova-se constantemente. O projeto construído foi fortemente influenciado pelos materiais locais e pelas técnicas próprias da cultura local, que responde diretamente ao contexto de Kikajjo. A intenção é de que essa
contextualização sirva como uma abordagem replicável em outras situações e localidades, como uma metodologia.

 

Em outra análise social do projeto, é possível entender que, além de fornecer suporte financeiro para as famílias das mulheres que participam das oficinas, o processo de construção visa capacitar essas mulheres para entrar no mercado de trabalho e reorganiza - através de uma configuração mais coletiva de casa - as necessidades individuais, economizando em recursos materiais e compartilhando responsabilidades entre elas. Dessa forma, pretende-se mitigar a possível jornada tripla - que une a maternidade solo, o trabalho doméstico e o trabalho remunerado - das que decidirem por um emprego longe de casa.

 

Academia e transferibilidade  - Em terceiro e último lugar, é importante ressaltar que esse projeto começou com um trabalho de graduação desenvolvido em resposta a uma demanda de clientes reais. O ritmo mais lento de aprendizagem da universidade possibilitou a conexão com o conhecimento local, a fim de gerar conjuntamente soluções responsáveis e viáveis. É de interesse que o projeto continue a estabelecer pontes entre a academia e a realidade, a fim de que a abordagem empregada em contextos tão distintos seja pautada em conhecimentos e metodologias amplamente estudadas, gerando resultados éticos e proveitosos para todos os agentes envolvidos.

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