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Seguimos Vivas também é uma busca por casa, de alguma forma. Com uma bicicleta, uma barraca, poucas roupas e comida, estamos em visível vulnerabilidade frente a um mundo cada vez mais blindado. Acabamos por questionar a aparente segurança  que sentimos fora das cicloviagens, quando habitando esses lugares blindados.  Questionamos, por fim, um sistema que nos quer sem coragem. Seguimos Vivas tem sido sobre o sentimento do corpo no espaço.

SEGUIMOS VIVAS

Seguimos Vivas é um bilhete, um sinal de fumaça, um telegrama.

O projeto foi criado de maneira espontânea: cinco mulheres decidiram fazer uma cicloviagem por toda a costa do Uruguai, começando no Chuí e indo até Buenos Aires, na Argentina.

 

A viagem, que totalizaria mais de 900km em um mês, contava com um baixíssimo orçamento (R$30/dia/pessoa): o valor diário estipulado era suficiente para uma boa refeição, uma cerveja ao fim do dia e eventuais gastos com mantimentos essenciais ou outros custos pessoais. Por não incluir o valor da hospedagem, dependíamos das amizades que fazíamos pelo caminho, numa mútua troca de afeto, carinho e cuidado.

 

Esse caráter de vulnerabilidade, próprio da proposta do grupo, era motivo de ainda mais tensão para as famílias, amigues e companheires das cicloviajantes, que muitas vezes ficavam incomunicáveis por falta de internet. A solução foi concentrar os "sinais de fumaça" sob a responsabilidade de uma única cicloviajante - eu, no caso -, que, sempre que conseguia, postava fotos no Instagram avisando que "seguíamos vivas".

 

O padrão de postagem - vídeos mostrando as outras quatro ciclistas à frente, pedalando na estrada - se replicou para a viagem seguinte, em 2019, que partiria de Fortaleza, no Ceará, passando pelo RIo Grande do Norte, Paraíba e terminando na sexta-feira de carnaval, em Olinda, Pernambuco.

fotos: Thais Viyuela e Dea Muner

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As viagens, com duração de um mês, acabaram ganhando repercussão por muito mais tempo e as envolvidas continuaram a ser procuradas para dar dicas de bicicleta, equipamento, rotas de viagem, etc.

Não foram poucas vezes, durante as viagens, que nos perguntavam "mas vocês estão sozinhas?", ao que respondíamos calmamente que "não, estamos em cinco amigas". Sabíamos que a palavra "sozinhas" se referia à falta de homens nos acompanhando e aos poucos fomos observando a falta de referências femininas para aventuras que buscassem tamanha vulnerabilidade como a nossa.

Nossas experiências foram relatadas num artigo escrito por mim e publicado no HuffingtonPost Brasil, plataforma atualmente desativada. Uma tradução para o espanhol foi publicada pela marca de mochilas de aventura argentina Güeya, cujos idealizadores conhecemos num evento no Centro Cultural Recoleta, em Buenos Aires.

Participamos também de um episódio de podcast do Beco da Bike, os as cinco relatam um pouco mais de suas experiências durante essas cicloviagens.

 

Nosso grupo apareceu também na edição impressa da revista Bicycling Brasil, revista dedicada ao ciclismo que também desativou sua versão brasileira da plataforma digital.

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Em 2020, por conta de outros compromissos e depois por conta da pandemia, parte do grupo decidiu se organizar em cicloviagens distintas.

Em dezembro de 2020 decidi descer sozinha a Mogi Bertioga, rumo à Caraguatatuba, cenário da minha infância. Depois, chegando de ônibus em Ilha Comprida, eu e Carolina La Terza seguimos por Ilha do Cardoso, Ilha do Superagui, terminando em Paranaguá. A viagem durou pouco mais de uma semana e foram quase 400km de pedal na areia.

Segue aqui um pequeno relato escrito pela Carol:

A correria e a falta de acesso regular à internet acabaram fazendo com que a história fosse contada pela metade nos stories. Então, aproveito para fazer aqui um pequeno relato dessa viagem que, além de linda, foi muito importante para nós.

Em 2018, algum alinhamento [carnavalístico] do universo nos colocou, eu, Thaís e Marina, na mesma hora, no mesmo lugar e na mesma vibração; construindo uma ligação anarco-biker-femininija, como a Marina costumava dizer, que foi nos aproximando em momentos distintos ao longo dos últimos anos.

Eu já tinha feito algumas viagens de bicicleta, quase todas curtas, de um dia e saindo direto de casa. Só em 2018 que estiquei por nove dias, saindo do RJ e chegando a São Sebastião com o RafaSiqueira e o PedroBurguer. Desde o começo da pandemia, estava bem parada e fora de forma (considerando que eu pedalava todos os dias para ir ao trabalho, fazia pole dance duas vezes por semana e escalava eventualmente).

A Thaís já é velha de guerra de viagens longas e cheias de mulheres, histórias e perrengues. Desde o começo da pandemia, ela tem estado na fritação do rolo e nos pedais pesados do Fuga CC.

A Marina, que já tinha seus muitos anos pedalando pela cidade, nunca tinha efetivamente feito uma viagem de bicicleta. Falávamos em descer pela Manutenção até Santos; em pedalar pela Costa Verde; até já cogitamos rodar pelo Nordeste e pelo Uruguai, inspiradas pela própria Thaís, mas não tivemos tempo de tirar essa viagem do papel.

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Neste final de ano, eu e Thaís nos grudamos e a viagem foi surgindo: ela iria encontrar com algumas amigas para pedalar pela ilha de Florianópolis, e falei em fazermos parte do caminho que ela teria que percorrer até lá pela praia. A ideia inicial era sairmos de SP no dia 22/12 e chegarmos em Joinville no dia 28 para, de lá, ela seguir de ônibus até Floripa e eu voltar de ônibus para SP.

Acabamos saindo no dia 23. Pegamos na Barra Funda um ônibus para Ilha Comprida, almoçamos por lá e já descemos pedalando até o Boqueirão Sul, na ponta da ilha. O pedal foi tranquilo: 52 km com tempo nublado, vento a favor e, apesar de um longo trecho percorrido à noite, não tínhamos com o que nos preocupar - uma vez que éramos só nós e uma faixa infinita de areia pela frente. Acampamos em um camping no núcleo que fica na ponta da ilha e, no dia seguinte de manhã, dia 24, pedalamos até a balsa e cruzamos para Cananeia.

A ideia era ter ido bem cedo para pegar o barco da DERSA que leva até o Marujá, na Ilha do Cardoso, mas estávamos moídas (e a barraca da Thaís é tão boa, que ficou escurinho e acabamos perdendo a hora). Acabamos desenrolando no cais dois assentos para nós e dois para as bicicletas, em um barco que partiria logo depois do almoço.

Passamos o Natal na Ilha do Cardoso, com direito a lua quase cheia, ilha quase vazia, e um delicioso jantarzinho enlatado preparado no fogareiro. No dia 25, aproveitamos a chuva para pedalar até o costão, ao norte, onde nos aventuramos um pouco pelas pedras.

No dia 26, aí sim, conseguimos acordar cedo e pedalamos descarregadas até a Nova Barra da Baleia, onde o mar abriu a passagem e formou uma enseada com 2 km de extensão em 2017 - até então, a praia do Cardoso seguia por mais uns 6 km até a divisa com o Paraná. Fomos pois queríamos conhecer esse trecho indo por fora, e voltamos com a ideia de pegar um barco direto do Marujá para cruzar por dentro. Dito e feito, conseguimos o melhor barqueiro que já conheci, seu Rosildo, que cuidou das bicicletas como se fossem dele, e de nós como se fôssemos família (e não somos?).

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Pedalamos o resto do dia com o sol na cuca e ventos ciclônicos soprando contra. Em cima da gente, tempo aberto; 200 metros pra direita, chuvas torrenciais sobre a restinga. Levamos quase 6 horas pra percorrer os pouco mais de 30 km que separam a Barra da Baleia e o povoado do Superagui, já no Paraná, pela Praia Deserta. Mais uma vez, só nós e uma faixa infinita de areia.

 

Chegamos à vila no final da tarde, aleluiadas pelo cansaço e por uma Coca Cola gelada no bar da dona Zica. Ao contrário do Cardoso, onde tinha pouca gente e todos estavam atentos ao uso de máscara e distanciamento, no Superagui parecia que não existia pandemia. Logo que anoiteceu, acabou a luz na ilha inteira e não conseguimos nem tomar banho direito, nem jantar. O stress do dia e do local nos fez plantar a sementinha de partirmos logo no dia seguinte.

 

Quando acordamos, meio atordoadas pela noite anterior, nos permitimos ficar um pouco largadas, só esperando algo acontecer. Até que aconteceu: conseguimos um pontinho de internet e vimos nos sites de passagem que não haveria ônibus para São Paulo a partir do dia 28 - a essa altura, a Thaís já tinha quase desistido de fazer o rolê em Florianópolis, parte em função da pandemia, parte em função do ciclone.

Resolvemos voltar no dia 27 mesmo. Arrumamos as coisas correndo, embarcamos no último barco partindo para Paranaguá, e depois pegamos o último ônibus para SP.

A viagem funcionou muito bem enquanto éramos só eu e Thaís pedalando e Marina presente conosco e em nós. Quando começou a envolver mais gente, deixou de fazer sentido nos expormos ao risco, onde ninguém em volta parecia se importar e quando tínhamos abraços queridos nos esperando para passarmos o réveillon juntinhos.

A quem tiver interesse: recomendo DEMAIS conhecer esses lugares, seja com mochila nas costas ou com alforge no bagageiro. O Cardoso é de uma beleza que não consigo colocar em palavras ou em fotos que façam jus, além de ser um exemplo de organização comunitária e de preservação ambiental. Tenho muita vontade de voltar para conhecer a Barra do Ararapira e ficar vários dias longe dessa vida urbana louca.

Agradecimentos especiais:

Manu, Yuri, Felipe, Chan

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Em fevereiro de 2021, às portas do que seria o aprofundamento da pandemia do coronavírus, organizei com mais dois amigos - pela primeira vez uma cicloviagem com homens - uma rota pelo litoral norte de São Paulo, partindo de Mogi das Cruzes, descendo pela rodovia Mogi- Bertioga e seguindo sentido Paraty, no Rio de Janeiro.

 

Como toda cicloviagem, o roteiro é sempre passível de ajustes, negociações, alterações e o dia-dia da locomoção, da hospedagem e da alimentação acabam sendo, em sua maioria, extremamente autônomos e coerentes com os protocolos de distanciamento social e higiene impostos pela pandemia. Por esse motivo, nos sentimos à vontade de pedalar pela rodovia Rio Santos e decidir qual praia estava mais vazia e mais segura à nossa estadia.

 

A viagem totalizou cerca de 300km em uma semana.
 

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